Viagem Itinerante
Tamara, Victoria, Tatiana: três membros do grupo "Mosaïques" de Convite à Vida em Berezniki, nos contam seu cotidiano, suas alegrias, suas dificuldades e suas esperanças nesse lugar isolado da Rússia, cujos habitantes se sentem por vezes tão esquecidos, tão distantes do mundo.
Tamara
Meus primeiros 20 anos, eu os passei num vilarejo de uma região antes completamente autônoma, que tinha sua própria língua, sua própria cultura, e que foi integrada à província de Perm há apenas um ano. Logo, não sou russa, mas de nacionalidade komi-permiak: meu povo é originário da Finlândia e antigamente avançou para o Leste. Ele se instalou na bacia do Kama bem antes dos Russos!
Depois de fazer meus estudos para me tornar uma educadora, eu me instalei em Berezniki, para trabalhar. Moro ali há 32 anos. Comecei a exercer minha profissão numa escola maternal e depois com crianças de 7 a 10 anos. Mas a profissão de professora é tão mal remunerada na Rússia que eu tinha dificuldades financeiras. Então decidi trabalhar na mina de potássio. Quinze mil pessoas trabalham nas minas em Berezniki. É bem difícil porque raramente vemos a luz do dia: quando saímos da mina, na maior parte das vezes o sol já se pôs. Após 8 anos passados na mina, para as mulheres, e 10 anos para os homens, recebemos uma pequena aposentadoria (4 500 rublos por mês: 120 euros). Como isso não é o suficiente para viver, depois da mina eu fui trabalhar numa grande empresa agroalimentar. Fiquei lá 12 anos e ali conheci meu 2º marido! Mas a empresa passou por uma falência fraudulenta e todos os empregados foram dispensados. Agora eu tomo conta de uma menina. Meu marido trabalha na mina, assim como minha filha de 21 anos, que tive no primeiro casamento. Também tenho um filho do meu primeiro casamento, que agora está com 29 anos. Tenho a sorte de viver num apartamento de que gosto muito, com meu marido e minha filha. Ela gostaria muito de ir embora de Berezniki, mas é preciso ter dinheiro para isso. No ano passado eu vivi momentos muito difíceis. Dois Franceses do IVI estavam de passagem, e minha amiga Liouba me convidou para eu me fazer harmonizar por eles. Isso me agradou, eu tinha o profundo sentimento que precisava disso. Então, me juntei ao grupo de orações "Mosaïques", que se reúne todas as quintas-feiras.
Esse grupo me agrada muito. Ali convivo com pessoas que têm as mesmas buscas do que eu. Com eles aprendo a expressar coisas que estavam escondidas dentro de mim há tempos. Mesmo com minha família eu era fechada, falava muito pouco, e agora eu me expresso muito mais. Tenho um marido muito bom, que me apóia em tudo o que faço: ele quer que eu vá aprender harmonização na França para depois poder harmonizá-lo!
Victoria
Quando eles terminaram seus estudos, meus pais vieram a Berezniki para participar de um entreposto komsomol. Eles trabalharam na fábrica de titânio e se instalaram aqui. Eu também trabalho na fábrica de titânio. Sou encarregada do serviço de segurança, que inclui 180 pessoas. É muito difícil supervisionar as pessoas: elas ficam facilmente agressivas devido à dureza da vida, devido à dureza da nossa profissão também. É preciso prestar atenção para não ofender ninguém, mas também é preciso ter muita firmeza para não se deixar desrespeitar, nem excluir. É difícil, mas é interessante.
Com a idade de 21 anos eu tive uma filha, que hoje tem 21 anos, e que no sábado me anunciou que está grávida! Estou muito contente, ela está feliz com seu companheiro. Minha filha não pensa em viver fora de Berezniki. Ela e seu companheiro são muito caseiros e precisam de suas famílias, de um ambiente conhecido.
Contudo, Berezniki é um pouco o fim do mundo! A estação ferroviária foi suprimida e o aeroporto de Perm fica distante. É uma região que não é bem considerada na Rússia. Há dois antigos campos de Goulag nas proximidades, os prisioneiros eram deportados para trabalhar nas minas. Os que foram resgatados dos campos ficaram aqui e criaram família. É por isso que vemos muitas pessoas de origem alemã na região: são descendentes dos prisioneiros de guerra. Até mesmo a natureza aqui é uma punição: é uma região rude! Em dezembro o sol nasce às 10 hs e se põe às 16 hs. A estação boa só dura o mês de julho. É preciso aproveitar o verão para fazer plantações, senão no inverno não comemos!
O ano todo eu trabalho muito durante a semana. No fim-de-semana vou à ginàstica, à missa, tricoto e vejo meus amigos. Eu também me ocupo, com frequência, dos meus pais que são doentes. Na missa eu encontrei as moças do grupo "Mosaïques" que me convidaram para rezar com elas. Depois eu me fiz harmonizar. Isso me agradou tanto que senti o desejo de aprender para poder ajudar os outros. Estou no inicio desse caminho, é algo muito profundo e tão novo! No grupo, cada um compreende esse caminho a seu modo. Conversar com vocês nos permite aprofundar nossa compreensão e os relacionamentos entre as personalidades muito diversas do grupo.
Minha mãe, minha filha e meu genro são contra o que faço no IVI. Acabo de ir para um apartamento para viver sozinha, pois quero receber meu grupo em casa como eu quiser e harmonizar quem eu quiser. Minhas colegas adoram a harmonização! Antes eu morava com minha mãe, mas ela queria controlar tudo da minha vida. Agora eu me sinto mais livre. Também rezo muito, pois a oração me ajuda muitíssimo.
Tatiana
Cheguei em Berezniki com um grupo de jovens cientistas. Acabávamos de fechar nossa grande empresa do Ural, uma fábrica de adubos. Eu gostava muito do meu trabalho! É preciso saber que em Berezniki há 4 indústrias químicas: de sais de potássio, de titânio, de soda e de azôto. Pode-se dizer que Berezniki é a capital da química na Rússia. Os comunistas davam grande importância a esta indústria. Khroutchev falava da "quimicalização" da Rússia para aumentar a potência do país.
É esplêndido navegar no rio Kama e toda a natureza é muito rica aqui. Mas há uma tal poluição! Se soubessem todos os dejetos que há nesse rio... O Kama é o maior afluente do Volga, e os problemas de poluição do Volga começam aqui. Berezniki foi construída para as necessidades do homem, mas sem preocupação com a natureza. Durante a guerra, todas as fábricas foram reinstaladas aqui, era uma necessidade. Quando éramos jovens, não nos procupávamos com tudo isso, mas agora... Onde vamos parar?
Posso dizer que a Perestroika correspondeu à perda de um ideal: meus amigos eram comunistas idealistas, mas com a idade e a experiência da vida tomamos consciência de certas coisas e mudamos. É preciso dizer que todos esses acontecimentos conduziram muitas pessoas a Deus. Quando éramos jovens não pensávamos em Deus. Cada um busca Deus a seu modo, e o caminho até a própria verdade é um caminho complicado!
Para mim, em agosto de 2006, uma amiga me convidou para rezar e encontrei o grupo "Mosaïques" na primeira reunião na casa de Tatiana. Me fiz harmonizar, mas o mais importante, no que me diz respeito, é a oração. As vibrações também têm para mim um verdadeiro significado.
Em que IVI modificou minha vida? Encontrei pessoas que pensavam como eu, o relacionamento com Deus ocupando o espírito de cada um no grupo. Esse grupo permite que nos encontremos a partir de um denominador comum. Quando ouço minhas colegas de grupo falar, eu me digo que elas estão formulando o meu problema! Não estou só, talvez isso é o que há de mais importante, caminho na mesma direção das minhas colegas.
