Peregrinação na Suíça de 18 a 24 de Abril de 2009
dolce vita, douceur de vivre, lebenszüsse
"Suíça de múltiplas paisagens, montanhas íngrimes, dolce vita... para que uma nova humanidade desperte e tenha mais generosidade e compaixão." Este é o início do tema da peregrinação na Suíça feito por Convite à Vida, que me parecia bem vago a princípio e se esclareceu, aprofundou e clareou ao longo dos dias através da riqueza das experiências compartilhadas e da diversidade dos lugares visitados. Nesses tempos de crise exacerbada, muitos peregrinos tiveram a oportunidade de viver ao longo desta semana nas estradas da Suíça.
"Paisagens múltiplas...": composta de 26 cantões de usos, costumes e culturas variadas, a Suíça sabe fazer frutificar sua beleza na diversidade.
A Roma protestante

Estátua de Calvino no Parc des Bastions, Genebra
Chegando em Genebra em 18 de Abril, num sol primaveril esplendoroso, os peregrinos fazem um piquenique sobre a relva do Parc des Bastions, já sentindo a doçura de viver suíça, não estando a grande distância, contudo, da austera estátua de Calvino, que governou a cidade no século XVI e a transformou na "Roma protestante". Na antiga cidade nós descobrimos o banco de madeira da Treille que, com seus 126 metros é o maior do mundo, a casa Tavel, a mais antiga da cidade (século XIV)... Nos recolhemos na igreja católica Notre-Dame e na catedral Saint-Pierre, templo da Reforma.
No fim da tarde deixamos Genebra, acompanhamos o lago Léman, e nos dirigimos ao Norte, para atravessar o Planalto suíço que se estende entre o Jura e os Alpes, zona de inclinações suaves e ricas terras agrícolas onde se encontra Berna, capital da Confederação helvética, que visitamos no dia seguinte.

A Kramgasse de Berna
Nessa manhã de domingo, a antiga cidade da Idade Média, tão cuidada e vaidosa ainda dorme. Catherine, que vive em Lausanne, me explica que é conhecida a pilhéria sobre as pessoas de Berna a respeito de sua lentidão: "Lento como alguém de Berna", diz-se na Suíça. Numa das ruas principais, a Kramgasse, saudamos toda a confederação representada pelas bandeiras coloridas, dos vinte e seis cantões que a compõem.
Nos dirigimos a Bâle, mais ao Norte, rico pólo industrial, comercial e artístico à beira do Reno, na fronteira entre a Suíça, a França e a Alemanha. Temos a alegria de ali encontrar nossos amigos de IVI-Colmar. A antiga cidade típica e animada, testemunha uma longa prosperidade. A tarde é consagrada à visita ao museu de Belas Artes (Kunstmuseum), onde estão representados os maiores pintores. Cada um dos peregrinos tem a oportunidade de se nutrir com as obras que o sensibilizam: primitivos italianos e flamengos, Corot, Renoir, Braque, Picasso, Rodin ou o Suíço Hodler...
Lucerna, a católica

O Lago dos Quatro Cantões
Duas horas de ônibus a Sudeste, alguns terços, testemunhos e um "yodle"(canto tradicional), mais adiante chegamos no Lago dos Quatro Cantões. As colinas e picos ainda cobertos de neve refletidos na água calma, os prados íngremes pontilhados por árvores floridas, tudo leva o peregrino ao sonho! E aos "agradecimentos" diante de tanta beleza.
À beira do lago, Lucerna é uma cidade católica que resistiu à Reforma. A beleza do lugar, o pitoresco da sua antiga cidade e a elegância de seus palácios fazem dela a capital turística da Suíça (5 milhões de visitantes por ano).
O almoço no barco sobre o lago se divide, de minha parte, entre contemplar as paisagens e conversar animadamente com os peregrinos de IVI-Milão. Estamos aqui no coração geográfico e histórico da Suíça. Em 1º de outubro de 1291 os representantes de três dos quatro cantões que ficam à beira do lago (Uri, Unterwald e Schwyz) se reuniram para concluir uma aliança perpétua, um pacto de ajuda mútua, que rejeitava qualquer sistema administrativo e judiciário imposto de fora, como os Habsburgos queriam fazer nesta região. A Suíça, então, se construiu com base numa solidariedade a toda prova contra os invasores, independente de quem fossem. Ela ainda se orgulha desta coesão, que a torna um porto de paz. "A Suíça é como o campo entrincheirado de Petibonum em Asterix!", me explicava brincando Béatrice de IVI-Suíça.

No topo do Monte Rigi
No dia seguinte, começamos a subir o Monte Rigi vizinho... em trem de cremalheira, o primeiro construído na Europa (1871). A ladeira é abrupta, nossos olhares se dirigem às águas do lago. Após uma curta caminhada, vibrações muito suaves precedem uma refeição no topo.
Lugano, um perfume da Itália

O lago de Lugano
Depois desta escapada, rezando nos ônibus os peregrinos se dirigem ao Sul para Lugano, porta da Itália. A barreira de escarpas do maciço de Gothard desemboca em Tessino, cantão esplêndido, de vales profundos e de clima temperado. Lugano nos acolhe com perfume da Itália: palmeiras e loureiros, fachadas ocres, passeios sombreados à beira do lago e a igreja Sainte-Marie des Anges onde rezamos e contemplamos os magníficos afrescos de Bernardo Luini, admirador de Leonardo da Vinci. Todos os ingredientes da dolce vita, de certo modo.

A caminho de Saint-Moritz
Após fazer vibrações num parque que nos oferece uma bela vista sobre o lago de Lugano, vamos para o Leste, em direção à "pequena Suíça no interior da Suíça", a do cantão dos Grisões. Mantidos à parte da germanização, alguns de seus habitantes fala o romanche, língua de origem latina, quarta língua oficial da Suíça. Durante 4hs, de Lugano a Saint-Moritz, os ônibus nos transportam através de colinas verdejantes, vilarejos minúsculos com elegantes igrejas alegradas por afrescos para, em seguida, atingir os picos nevados e descer até Saint-Moritz. As estradas da Suíça são então semeadas pelas orações e testemunhos liberadores dos peregrinos que desejam, de todo coração, se despojar de tudo o que lhes pesa: os rigores de uma educação protestante demasiadamente rígida, o julgamento em relação aos outros, o medo de ficar sem dinheiro, o medo de falhar no trabalho, e sempre o julgamento em relação aos outros... todas essas dificuldades que nos impedem de ser livres e que poluem nossas vidas!
Uma noite em Saint-Moritz, estação "glamourosa", e embarcamos por 7hs de viagem no trem Glacier Express ("O Expresso mais lento do mundo"!), que nos faz atravessar a Suíça de Leste a Oeste. Viadutos perigosos, "grand canyon Suíço", desfiladeiros do Reno, colo nevado a 2033m, monastérios, vistas panorâmicas e cidades de montanha enfeitam a viagem até a cidade de Brig, no vale do Ródano. Depois, ainda 2hs de ônibus para encerrar o ciclo e voltar a Genebra, ladeando o lago Léman, majestoso mar interno.
O amor universal, cimento de uma nova humanidade, com maior compaixão.

Bandeira suíça no alto do Monte Rigi
A peregrina que sou, se deixa impregnar e levar por tanta beleza na diversidade, fonte da doçura de viver. Me deixo invadir pela paz e pela segurança desta terra da Suíça que quase não conheceu a guerra sobre seu território de 500 anos para cá e soube preservar uma excepcional solidariedade além das suas diferenças. Léman de língua francesa, Berna e Lucerna de língua alemã, Lugano de língua italiana, e Grisões de língua romanche... Nenhum outro país, eu creio, chegou a um tal grau de coesão na diferença! Coesão certamente favorecida pela prosperidade. Não temos de sonhar! As questões fúteis e as rixas existem, os ódios também. Marie-Lise, que mora em Lausanne, me explica, por exemplo, que os Suíços alemães se enervam usualmente com os Suíços de língua francesa: "Nada de coisas sérias, só variedades!" E os Suíços de língua francesa contra os Suíços alemães: "Quando é assim, isso não é de outro modo!" expressa sua impaciência diante do rigor suíço alemão...
Mas creio que em peregrinação captamos e nos impregnamos da essência benéfica dos lugares: na Suíça, foi a dolce vita na diversidade, depois de transpôr as barreiras das montanhas íngremes... Durante essa viagem eu senti profundamente este amor universal, único cimento que pode unir cem peregrinos além de todas as suas diferenças culturais, geracionais, lingüísticas, sociais, econômicas, religiosas... Só este amor universal pode fazer com que "uma nova humanidade desperte e se torne mais generosa e cheia de compaixão" para eliminar divisões e ódios destrutivos. Isso é utópico? Já éramos cem pessoas que tentaram se aproximar e frequentemente atingir esta plena aceitação do outro tal como ele é. Os peregrinos Suíços, principalmente, deixaram com que o amor e afeto dos Franceses penetrassem no seu "campo entricheirado", e os peregrinos Franceses se empenharam para acabar com a própria tendência de "ensinar", característica nacional!
Pessoalmente, eu tinha uma grande dificuldade de comunicação com uma pessoa, e queria muito abordá-la! As circunstâncias fizeram com que fôssemos obrigadas a jantar lado a lado, e os a priori que me separavam desta pessoa se desfizeram. Conversando com ela, percebi o quanto tínhamos tido, apesar de aparências tão diferentes, feridas e experiências comuns. Entre nós havia apenas a nossa humanidade, o amor e a compaixão, além de todas as nossas diferenças. Que delícia na fluidez dessas relações humanas! Mas quantas "montanhas íngremes" é preciso subir primeiro para fazer desaparecer os próprios a priori, julgamentos, timidez, orgulho, complexos, rancores, invejas, falta de lucidez, etc., todos esses males que envenenam nossos relacionamentos com os outros.

O conjunto de sinos
Toda última noite de peregrinação é uma noite de festa! Saboreando os chocolates artesanais que Odile nos fornece em profusão, feitos na sua fábrica em Genebra, escutamos maravilhados Rémy, o músico multi-instrumentista suíço que toca sucessivamente a trompa dos Alpes, o corno de vaca, a harpa dos copos, sinos, serrote musical, colheres do cantão de Schwyz, e outras variedades sonoras!
A peregrinação terminou no outro dia com uma sessão de vibrações na beleza primaveril do campo de Genebra, seguida por uma conferência de Yvonne Trubert, fundadora de Convite à Vida: ela fala da absoluta necessidade da liberdade no amor, do abandono de nossos medos, dos progressos do ecumenismo a serviço de um Deus único, Pai de todos os homens. Para concluir, ela enfatiza uma outra qualidade indispensável ao verdadeiro amor : a doçura.
Fotos: Prisca e Hubert
Texto: Marie-Hélène
