Peregrinacoes

Viagem Itinerante

Berezniki, no coração da Rússia

Em Bereniki não há catedrais com cúpulas douradas, nem museus importantes. Os tesouros da Rússia aqui têm simplesmente o nome de Natacha, Irina, André, Victoria,Tamara... narrativa de uma viagem a seu encontro graças a Convite a Vida.

O Ural, o que ele nos evoca? Os confins da Europa e o começo da Ásia, uma etapa misteriosa na estrada da Transiberiana, a taiga coberta de neve sob um frio polar. Quando esboçam o projeto de visitar nossos amigos de Convite à Vida de Berezniki,

Vistada cidade de Berezniki

pequena cidade do Ural, eu não escondo minha alegria de poder descobrir esse lugar perdido no coração da Rússia. Para determinar minhas imagens de cartões postais, eu acesso Berezniki através do Google, o que me provoca algum desencanto: um dos lugares mais poluídos da Rússia, onde os gases mais nocivos foram produzidos durante a Segunda Guerra mundial, e onde a indústria química continuava a despejar seus dejetos tóxicos na natureza. A água e o ar estão tão poluídos que a mortalidade infantil ali é particularmente elevada. Digerindo esse retorno à dura realidade, eu me rejubilo, contudo, em partir ao encontro desses Russos dos confins do mundo.

Somos uma equipe de 7 pessoas a subir no avião para Moscou em 3 de abril: Natacha, cuja origem russa lhe outorga a função essencial de tradutora, Christian-Yves e sua mulher Patricia, Pascale e Marie-Noëlle vindas da Dordonha, meu marido Alain e eu.

Nicolas e Fedor

Sete horas de espera no aeroporto de Moscou aguardando o vôo para Perm, capital da província onde se situa Berezniki. Temos tempo para aprender mais, através de Christian-Yves e de Natacha, a respeito do início do IVI na Rússia, na região do Ural: "IVI começou na Rússia no início dos anos 90, quando o país se abria ao mundo, conta Natacha. As condições de vida eram, então, muito difíceis. Eu me lembro dessas filas intermináveis e silenciosas na neve, para adquirir qualquer gênero alimentício. As pessoas, de roupas cinzentas, não falavam, tal era seu medo. Durante nossas visitas, trazíamos medicamentos e alimentos, pois estavam privados de tudo.

IVI começou na Rússia com os mais carentes dos carentes, na adega dos Alcoólatras Anônimos da cidade de Pouchkine, perto de São Petesburgo. A adega onde eles se reuniam era de baixo nível: suja e poeirenta, o linóleo no chão estava podre, a iluminação feita por um único lampião a gás era verde-azulada. Éramos dois a harmonizar, e o fizemos sem parar das 10h até às 2h do dia seguinte. Conversamos com eles, nós os harmonizamos novamente... Quando voltamos alguns meses depois, eles tinham transformado a sua adega para torná-la mais bela, com seus parcos recursos: eles tinham lavado tudo, recuperado assentos de ônibus, colado caixas de ovos no teto para decorá-lo, caiado novamente as paredes, colocado um papel ao redor do lampião para melhorar a iluminação... Era muito tocante. Eu me lembro de ter harmonizado Nicolas, um belo homem de uns 30 anos. No dia seguinte ele me traz uma rosa. Eu o harmonizo de novo e ele me diz: "Você é a primeira mulher que eu respeito, depois da minha mãe. Você sabe, sou um violador, fui preso por isso." Um outro se chamava Fedor: desapontado com sua nacionalidade, grande alcóolatra, chega às 2h da manhã para se fazer harmonizar. Mas estávamos realmente cansados demais e combinamos que voltasse no dia seguinte. Este homem que sempre tínhamos visto sujo, em andrajos, tomou um banho e colocou suas roupas mais bonitas: se vestiu de branco da cabeça aos pés para nos homenagear".

Christian-Yves prossegue: "Grupos de oração foram criados em Pouchkine, São Petesburgo e Moscou. Mas nos anos 90, no início da abertura da Rússia ao mundo, havia confusões entre a missão espiritual do IVI e a simples curiosidade dos Russos nesses anos quanto a tudo o que vinha do exterior e os fazia sair do seu cotidiano difícil. Os Russos são pessoas muito receptivas e sensíveis, mas prontos para argumentar! Eles se empenharam em organizar IVI no seu país, mas a organização em geral não é sua maior habilidade! Contudo, temos muito a aprender com eles quanto à intuição, quanto à escuta. Um provérbio Russo diz: "Não se pode avaliar a Rússia através de um metro... a Rússia, só se pode amá-la."

Em 2005, Marguerite, uma jovem alemã do IVI veio passar um ano no Ural, em Berezniki, para ajudar o pai Eric, um padre alemão que criou não longe desta cidade um centro de desintoxicação para drogados e alcóolatras. Ela harmonizou várias pessoas e os convidou para rezarem juntos, e foi assim que começou Convite à Vida em Berezniki. Algumas pessoas harmonizam também em Chelyabinsk e Orenbourg, no sul do Ural.

Um sopro que varre tudo

Chegou o momento de pegar o avião para Perm, aonde chegamos às 5h da manhã, hora local. Victoria, jovem mulher do IVI de Berezniki nos acolhe no aeroporto e vem conosco no mini-ônibus que nos conduz mais ao Norte, a 176 km apenas, mas percorridos em quase 4 horas. Levamos 1 hora para sair de Perm, que se estende por 65 km ao longo do rio Kama. Nesse país imenso, as cidades têm toda a possibilidade de se estender em comprimento.

Paisagem da taiga

Uma vez que saímos da cidade, aproveito totalmente a alegria de contemplar o nascer do sol sobre a taiga, esta floresta de coníferas e de bétulas que cobre milhões de quilômetros quadrados, desde as margens do mar Báltico até os confins da Sibéria. Estamos na zona central do Ural, e aqui a cadeia de montanhas só se manifesta por ligeiros vales. Por vezes nós atravessamos um rio imenso, cuja cobertura gelada brilha delicadamente como o nascer do sol. Essa paisagem é de uma monotonia repousante e eu aprecio o despojamento onde só existe o infinito do céu, a verticalidade das árvores, a abundância da neve e da água, a perder de vista. Gosto de ir à Rússia, pois da sua imensidão nasce um sopro que varre todos os pequenos compartimentos, todas as estruturas fechadas do nosso mental cartesiano. Os Russos certamente precisam do nosso sentido francês do equilíbrio e da harmonia, nós precisamos do seu sopro lírico que nos liberta do nosso pensamento demasiadamente sofisticado.

Praça dos Soviets em Berezniki
Após 24 horas de viagem, chegamos em nosso hotel da praça dos Soviets, perto da Avenida Karl-Marx, num estado de grande cansaço. Depois de algumas horas de repouso, fazemos nossa primeira caminhada na cidade que tem um aspecto orgulhoso e mal cuidado, sob um céu límpido e com os pés na lama, a neve derretendo a olhos vistos nesse início de Primavera.

Na mesma noite encontramos nossos amigos do IVI. Eles são uma dezena de pessoas que nos prepararam uma refeição de rei, para nos estimular à descoberta das especialidades locais. Nossa brilhante intérprete Natacha cria um elo muito fluido entre Franceses e Russos, para eliminar qualquer obstáculo da língua. Eles nos falam da harmonização que eles adoram, de sua vida material que não melhorou muito desde que Poutine é presidente, de Medvedev que em breve assumirá suas funções... É a primeira de uma série de conversas apaixonantes que teremos uns com os outros para falar a respeito da nossa vida espiritual e do nosso cotidiano.

A noite reparadora nos prepara para três dias de trabalho em comum e para trocas frutíferas em torno das três "chaves" de Convite à Vida: orações, harmonizações e vibrações. Fazemos nossas refeições no pequeno bistrô que a petulante Natacha tem no 2º andar do hotel. Com sua peruca ruiva, suas botas brancas que vão até a virilha, e sua calça preta colante, ela é vibrante e também cheia de humor, transbordante de energia e de generosidade: "Desde que o doutor Francês me harmonizou, ela nos explica (Christian-Yves é médico), minha energia transborda, vejo o céu azul mesmo à noite, me reconciliei com todos os meus vizinhos, chamei meu ex-namorado para lhe pedir perdão, e amo a Terra inteira! (Entretanto, ela tinha bebido uns dois ou três copos de vodca).

Quantos encontros maravilhosos...

Há a encantadora Olga, de 16 anos, que nos faz uma demonstração de seus talentos de bailarina, na casa de cuidados para drogados do pai Eric, que visitamos no dia seguinte. Ela é a graça personificada, pequena irmã ignorada das dançarinas do Bolchoi.

Há Irina, que eu harmonizo na casa do pai Eric: bela jovem loira, ela se casou com André, um antigo drogado que agora ajuda o pai Eric a construir uma segunda casa para acolher os drogados. Sua pequena filha Masha está fazendo a "siesta", mas Gloria, 6 anos mais velha, está há 15 dias no hospital devido a uma grave crise de asma. Podemos nos comunicar em inglês, o que é raro acontecer com as pessoas que encontramos.

Tamara nos apaixona, contando como os sais de potássio locais não servem apenas à indústria química para fabricar adubos, vendidos no mundo inteiro, mas também servem para curar: "As minas têm uma outra utilidade: a de curar a asma e as doenças pulmonares. Em certas galerias, foram postas camas onde os doentes ficam ali por várias horas, nunca mais do que 18 dias seguidos, pois isto seria prejudicial. Blocos de sal de potássio são vendidos, aliás, em toda a Rússia: colocados nas casas, eles ionizam o ar e são benéficos para as vias pulmonares. As minas são magníficas, com galerias de cores variadas. Elas são muito vastas e belas, como as galerias do metrô de Moscou!"

Zoïa, professora de história, nos comove ao expressar diante de todos nós a sua reticência em se abrir no seu grupo de orações "Mosaïques", devido à educação rígida que recebeu, pouco habituada ao diálogo, o que é compartilhado por muitas famílias na Rússia, segundo o que diz: "Creio que levará um certo tempo para mudar nossos hábitos e se fazer entre nós uma total confiança mútua."

Esses três dias de descobertas, de trocas, de abraços, de risos, de lágrimas e de orações terminam como deve ser, por uma refeição festiva preparada com generosidade pelos nossos amigos russos: pirochkis, ovas de salmão, aves e sobremesa de groselhas são acompanhados por vinho e vodca. Se fomos visitá-los, temos a plena certeza de ter recebido tanto quanto nós lhes demos. Nesta cidade isolada, longe do esplendor visual de São Petesburgo ou da agitação moscovita, todos nós temos o sentimento de ter tocado o coração profundo da nobre Rússia.

Marie-Hélène, abril de 2008

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