Peregrinacoes

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Viagem itinerante

Uma epopéia franco-romeno-búlgara

Um magnífico périplo da Transilvânia prepara um encontro franco-balcânico muito particular: quinze peregrinos franceses de Convite à Vida se unem a vinte e oito peregrinos búlgaros desta mesma associação, para juntos descobrirem Bucareste, levando sua oração e seu entusiasmo ao lugar.

Quando abordamos um país como peregrinos, a viagem e as descobertas são tão internas quanto externas a nós mesmos. Quando eu vim pela primeira vez à Romênia com Convite à Vida em 1998, captei imediatamente a tristeza e a desesperança que impregnavam todo este país na época. Tive a terrível impressão de tocar as profundezas do sofrimento humano, assim como os meus na ocasião, de me confrontar com uma espécie de Drácula interno (esta figura bem conhecida do folclore romeno) e ele não era belo de se ver!

Se reuni toda a minha coragem para voltar à Romênia e para transformar essas lembranças, é porque tive a oportunidade desta vez de poder abordar esse país sob o ângulo da sua beleza, longe dos imóveis deteriorados de Bucareste e das margens asfaltadas do mar Negro.

Arados e Celulares

Portanto somos quinze peregrinos, nesse 29 de abril de 2008, que embarcamos para Bucareste, onde Catalina nos espera, nossa maravilhosa e vivaz guia romena, assim como o atencioso Narcisse, nosso motorista, que nos conduz com segurança nas estradas renovadas de Bucareste, em direção à Transilvânia.

A Transilvânia é uma região desconhecida, mas que dá margem à imaginação, que abriga o Castelo dos Cárpatos de Julio Verne... "Eu a imaginava como no Cetro de Ottokar das aventuras de Tintin!" explica Erik, um dos peregrinos. Nesse começo de maio, a Transilvâniia ultrapassa muitíssimo o nosso imaginário: inserida na cadeia de montanhas dos Cárpatos, ela apresenta uma bela variedade de curvas, de colinas, desfiladeiros talhados no leito dos rios, planaltos pontuados por árvores frutíferas em flor e dominadas por picos cobertos de neve. Seus vilarejos-ruas os acolhem por um alinhamento de casas cuidadas, com fachadas rosas, verdes, ocres e outras nuancias alegres. No vilarejo de Cristian em particular, cegonhas gostam de fazer seus ninhos sobre postes telegráficos, com formatos para acolhê-las. Muitos camponeses se deslocam ainda com suas famílias em charretes atreladas a cavalos e trabalham a terra com o arado mais do que secular, uma simples relha unida a dois pedaços de madeira carregados em cada mão, puxada por um cavalo. Mas habitualmente eles usam celular no campo! Passamos uma noite no vilarejo de Sibiel, acolhidos por Maria e Cristina, que transformaram uma parte de suas casas em quartos para hóspedes e servem a seus convidados, refeições pantagruélicas onde desfilam especialidades da região: sopa, sarmalé (rolinhos de folhas de repolho ou de beterraba recheados de carne), queijos e doces feitos em casa.

As cidades que visitamos, Sibiu, Sighisoara e Brasov, as três tendo sido fundadas ou embelezadas por colonos alemães vindos à Transilvânia no século XI, oferecem a nossos olhos os preciosos vestígios do seu glorioso passado. Sibiu, berço da colônia alemã, pretegeu sua prosperidade e a beleza alegre de suas fachadas coloridas abrigada por diversas muralhas. Percorremos rezando as ruas coloridas de Sighisoara, suas praças animadas enfeitadas por belos imóveis que mantiveram as marcas do tempo e que ainda não foram levemente retocados como em Sibiu; que sorte tivemos, almoçamos na casa de nascimento de Vlad Tepes, aliás Drácula! De Brasov, aos pés da estação de esqui Poiana Brasov, descobrimos primeiro a igreja Saint-Nicholas: o professor Oltean, transbordante de humor e de cultura, nos faz visitar seu tesouro, o pequeno museu que ele constituiu com documentos muito preciosos e livros da tradição romena que ficaram por muito tempo escondidos da igreja. Depois apressamos o passo até a Igreja Negra, assim denominada porque passou por um incêndio no século XVII. O interior é puro e claro, ornado com uma esplêndida coleção de 119 tapetes da Anatólia. Era usual que os ricos mercadores oferecessem à Igreja as peças mais preciosas do seu comercio.

Tesouro dos Cárpatos

A respeito das igrejas, na Transilvânia elas são múltiplas: os Romenos são ortodoxos, os Alemães introduziram a Reforma Luterana, e os Húngaros, muito presentes por séculos, são católicos. Descobrimos o monastério de Cozia, jóia bizantina à beira do rio Olt, que oferece ao olhar seus afrescos suntuosos em homenagem à Santíssima Trindade. "As igrejas são muito bem mantidas, pois os Romenos são muito religiosos", nos explica Catalina. Eu visistei monastérios na Bulgária no ano passado, onde havia uns 20 monges. Entre nós, um monastério pode abrigar 500 monges ou monjas. "Uma religião às vezes cheia de superstição como em Cozia, onde folhas de papel são postas à disposição dos fiéis para que eles escrevam suas intenções de oração. A seguir os papéis são entregues ao Pope (sacerdote ortodoxo), que reza por essas intenções... mediante um pagamento.

Os Alemães construíram numerosas e notáveis igrejas fortificadas, destinadas a protegê-las dos invasores, depois do terrível ataque dos Tártaros no século XIII. Uma das mais belas, a igreja de Biertan, fica no fundo de um vale verdejante. A igreja, que se alcança por uma escada de madeira, é construída no alto, rodeada por uma tripla cerca de muralhas. Ao lado da igreja, dotada de um retábulo muito belo, foi construída uma pequena casa para moradores surpreeendentes: casais desejosos de se divorciar eram ali encerrados por 15 dias, com um único prato, um único copo e um único talher para comer. Parece que depois de 15 dias, 80% dos casais não queriam mais se divorciar! Perseverança, quando você nos mantém...

A Transilvânia também tem muitos castelos. O castelo de Bran, inclinado sobre seu rochedo, impõe sua silhueta austera, que constrasta com a beleza acolhedora do seu pátio interno e com a simplicidade refinada da sua decoração, desejada pela rainha Maria da Romênia nos anos 20. O mais delirante dos castelos, sem dúvida nenhuma, é o de Peles. O castelo Peles é o castelo da Europa Central tal como podemos sonhar. Carol 1º, rei da Romênia nos idos de 1870, o construiu. A tendência de sua arquitetura se refere, ao mesmo tempo, a Walt Disney, a Hergé e às loucuras bávaras de Louis II. O interior, decorado muito, muito ricamente, se assemelha a um inacreditável e suntuoso local de objetos usados: marchetarias de mármore italiano, madeiras constituídas por 12 essências diferentes, tapetes persas de sedas das cores do arco-íris, baixos-relevos em alabastro, vitrais... e mil outras maravilhas. Carol 1º era então um grande colecionador, mas também um homem moderno: seu castelo é uma das primeiras residências européias a ser equipada com aquecimento central, água corrente e, no hall principal, um teto de vidro basculante.

E a peregrinação nisso tudo, me diriam vocês? Nossas visitas são interrompidas por longos trajetos de ônibus em que temos a alegria de juntos verter nossa oração sobre esta terra magnífica, de testemunhar nossas impressões e nossa própria vivência nesta terra da Romênia. Um dos privilégios do peregrino é verdadeiramente esta troca entre o visitante e o país visitado. Esta alegria de lhe dar nosso amor através da oração, assim como receber suas riquezas humanas, naturais e culturais. É sempre muito espantoso constatar que, se inicialmente temos pouca afinidade com alguns peregrinos, a oração e os testemunhos permitem aplainar esses a priori para valorizar a verdade e a beleza de cada um.

Ser livre, até mesmo do dinheiro

Depois desse périplo Transilvânico descemos, sempre rezando nossos terços, à vasta planície de Valáquia, ao Sul da qual palpita Bucareste. Perto da capital, um camponês empurra sua carroça no seu campo estreito, não longe de dois entrepostos mais do que novos das lojas Carrefour. Bucareste explode, constrói, se recupera após anos difíceis do período Ceausescu. Ela está bem viva e até mesmo feliz (o têrmo Bucareste provém de uma raiz romena que significa: "cidade da alegria"), mas a que preço? "Somos muito mais livres agora, explica Narcisse, nosso motorista, nascido em 1972 (Ceausescu foi afastado em 1989). Se minha filha é muito inteligente e quer estudar, ela tem a possibilidade de fazê-lo. Mas os Romenos só pensam em ganhar dinheiro, só isso os interessa. Eu me pergunto se existe algum lugar no mundo em que as pessoas estejam livres até mesmo do dinheiro..." Jeanne, jovem "peregrina" que mora em Bucareste há 13 anos, confirma: "Estou muito feliz por viver em Bucareste, pois isso me abre horizontes que eu nunca teria suspeitado ficando em Paris. Encontro pessoas de todos os países: agora muitos estão de passagem por Bucareste. Mas nós nos ligamos pouco com os Romenos, porque somos tão diferentes culturalmente : com frequência eles só pensam em ganhar dinheiro e em mostrar quando têm. Certamente isto é compreensível, já que foram privados de tudo por tantos anos... As diferenças aumentam entre os muito ricos e o proletariado que vive nas periferias deterioradas de Bucareste. Pensem que no centro da cidade o preço dos apartamentos triplicou em 3 anos!" Catalina nos faz notar que uma das consequências do desenvolvimento da cidade é uma circulação dos carros que ela qualifica de infernalainda mais que muitas ruas estão em obras de renovação: 1 milhão e 200 000 veículos estão registrados em Bucareste e sua região, o que é muito para uma cidade de 2 milhões de habitantes. "Na sexta à noite e na segunda-feira de manhã podemos ficar 2hs dentro do carro sem avançar 5 km! É agora a cidade mais poluída da Europa", ela acrescenta.

Chegando a Bucareste, ela nos leva para jantar num restaurante que está na moda, no coração da velha cidade, o "Char à Bière", uma vasta e antiga cervejaria néo-gótica com uma decoração exuberante de madeiras, afrescos e vitrais. "É incrível a transformação de Bucareste e de todo o país, diz Alain, que visita o país em função do IVI há vários anos. Quando eu vinha nos anos 90, sentia a tristeza, a fragilidade das pessoas fissuradas no seu passado. Entretanto, a vida ainda é difícil, uma vez que 3 milhões de Romenos foram para outros países após a supressão dos vistos no espaço Schengen, em 2002. Como a Romênia tem agora pouca mão-de-obra, Chineses, Moldavos ou Ucranianos vêm trabalhar aqui... Mas a vida voltou a esse país: tudo se torna possível..."

Búlgaros em Bucareste

No dia seguinte saímos da cidade pelo sul, para ir ao encontro de nossos 26 amigos búlgaros do IVI. Nós os encontramos à beira do Danúbio, fronteira natural com a Bulgária, para uma sessão de vibrações. Eles vêm de Sofia, Plovdiv, Yambol e viajaram uma dezena de horas de ônibus para nos encontrar. Eu imaginava vibrar com eles num vasto campo florido à beira do Danúbio... De modo algum! Nos encontramos num pequeno parque não distante do posto de fronteira de Giurgiu, onde o trânsito era denso, com vista para o hotel "Estrela do Danúbio", um prédio horroroso envelhecido, datado da época comunista, que acolhia não sei quais turistas nessa "terra de ninguém". Quanto ao Danúbio, nada no horizonte... A maravilhosa sessão de vibrações que vivemos transcende essa decoração hostil, me deixo levar pela força alegre e coletiva desses Búlgaros, por seus cantos magníficos que misturam a nostalgia eslava com notas pungentes de melodias turcas. Depois de fortes abraços (os Búlgaros sabem comunicar o seu calor e a sua generosidade, eles nos pegam realmente nos braços sem qualquer reticências), voltamos todos juntos a Bucareste para visitar a cidade com o desejo de lhe transmitir esta força viva da oração conjunta.

Durante o almoço na rua Lipscani, uma das mais belas da cidade, eu converso com Nicky, Búlgaro com formas tão generosas quanto seu coração, que fala bem francês. Eu o interrogo quanto aos relacionamentos entre a Romênia e a Bulgária: "Não há um verdadeiro problema entre nós. Temos duas culturas muito diferentes, uma vez que somos eslavos e que os Romenos são latinos. Mas o domínio comunista sobre ambas, reduziu nossas culturas e sem dúvida nos aproximou. Atualmente há mais uma rivalidade no plano econômico: as empresas italianas ou francesas são bem acolhidas na Romênia, enquanto muito poucas empresas estrangeiras se instalam na Bulgária. O governo búlgaro é muito corrompido e certamente não faz o que é preciso para favorecer nosso desenvolvimento econômico."

Partindo do restaurante, visitamos a pé o coração da cidade antiga que quase não escapou do perigo: "Ceausescu planejou arrasar esses bairros antigos em 1990, e felizmente ele morreu antes", nos explica Catalina.

Uma oração nos reúne, Franceses e Búlgaros, na íntima igreja ortodoxa Stavropoleos, obra-prima do século XVIII, construída a pedido dos comerciantes gregos de Bucareste. Percorremos as ruas antigas antes de voltar a pegar o ônibus que nos deposita diante do Palácio do Parlamento: esta colossal loucura arquitetônica, construída por 20 000 operários a serviço de Ceausescu entre 1984 e 1989 esgotou os recursos do país, pois o ditador queria que todos os materiais desse palácio, quase tão grande quanto o Pentágono americano, fossem exclusivamente originários da Romênia. Todo o bairro ao redor foi da mesma forma posto abaixo e reconstruído para criar a Avenida da União, que rivaliza em comprimento, largura e grandeza com a nossa Champs-Elysées.

Acabamos nossa oração diante do Palácio do Parlamento, enxarcados pela tempestade. Depois Catalina e Narcisse levam os Franceses e Búlgaros para um lugar que não poderia ser mais diferente: o Museu da Cidade é porto de paz e de beleza à beira de um lago, ao norte da cidade. Ele propõe construções rurais tradicionais representativas de todas as regiões do país: casas coloridas ornamentadas com varandas acolhedoras, igrejas em madeira pintadas com simplicidade, fazendas e suas dependências, moinhos de vento...

O dia termina num restaurante com orquestra e dança folclórica, que escutamos respeitosamente antes de nos lançarmos em danças franco-búlgaras que deixam consternados nossos vizinhos do ônibus japonês sentados comportadamente ao redor de sua mesa.

Ser e tornar-se

Antes de nos separarmos no dia seguinte, uma bela reunião junta na oração e no diálogo Franceses e Búlgaros a respeito de como aprofundar a fé, como vivê-la e compartilhá-la. "Vocês não podem imaginar o quanto a vida ainda é difícil na Bulgária, testemunha Svetoslav, um jovem cinesioterapeuta de rosto sensível e olhos doces. Somos obrigados a trabalhar muito para poder viver, o que acaba reduzindo nosso tempo de presença no centro de Convite à Vida." Evelina: "Enquanto membro do IVI eu não sou um ser terminado, sou um ser em transformação e num vir a ser. É sempre necessário fazer esse trabalho para encontrar a harmonia interior de modo a pôr em ação a harmonia em nossas vidas e ao nosso redor."


Por volta do meio dia nós nos despedimos, tão felizes, fortificados e enriquecidos por essas orações, essas trocas e este amor compartilhado. Pessoalmente eu compreendo o quanto fiquei feliz durante esse périplo romeno e agradeço o Céu por ter posto em mim a beleza e a vida onde antes havia existido angústia e medo. Como nesta Romênia transformada... E eu parto com esta esperança de que o mundo no fim do século XX atingiu o seu nível mais baixo e que, a partir de então a consciência humana só pode se elevar – mesmo se isso provocar crises ainda dolorosas como a que vivemos atualmente – para que nos tornemos livres, mesmo (e principalmente) do dinheiro.


Marie-Hélène, maio de 2008

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