Peregrinacoes

Viagem itinerante

México lindo

De Guadalajara às pirâmides da Lua e do Sol, os imprevistos nos ensinaram a refrear o tempo e a cultivar os instantes de graça durante nossa visita aos grupos de Convite à Vida no Mexico. Tudo começa em pleno vôo.

México City

Uma escala em Amsterdã e ei-nos embarcados para o México, a parte posterior da cabine sendo invadida por uma equipe de jovens Espanhóis cheios de uma energia contagiante. Espalhados dois a dois nessa imensa nave, esta era a equipe de Convite à Vida: François, Nicolas, Jean-Pierre, Agnès W, Marie-Paule e eu mesma. Agnès B se unirá a nós diretamente no México. Encantados com a euforia da turma jovem espanhola, nós nos contactamos mutuamente de um banco a outro. Nicolas, com uma verve espantosa, alinha suas estórias interligadas umas às outras, provoca nosso riso, enquanto François nos lembra que o amor entre nós será o motor para todo o nosso trabalho lá. Começou bem. Nota azul...

Já é tarde no México quando chegamos ao centro de Convite à Vida. Entretanto, todos estão presentes na calçada e na rua para nos acolher, naquela que vai ser nossa casa de família durante a estadia. Augusto, Lizbeth, Irma, Monica, Roberto, Yuri, Carlos, Alicia, Guilhermina e tantos outros. Alegria, emoção, enquanto somos envolvidos num formidável turbilhão de abraços. Não a cena dos sapateados dos pequenos beijos muito superficiais. Os abraços "à maneira mexicana" são verdadeiros apertos ternos, sólidos, em que os rostos se encaixam no vão do ombro do outro e ali permanecem por um tempo.

Ternura cúmplice

É então que descobrimos nosso jardim: um maravilhoso pátio azul com seringueiras gigantes, numa sucessão de arcadas, de heras e de primaveras. Estamos felizes.

Exaustos também, pois para nós ainda é de manhã. Momentos delicados em que o cansaço, a escaramuça nos espreita. Aterrorizada eu vejo (Já? Infelizmente, sim...), pela grande janela envidraçada, no térreo, um quarto de princesa dotado de banheiro privativo. O único! "Ele não será para você", sussurra minha pequena voz interior. Ergo as mãos e as deixo cair, em silêncio. Enquanto os rapazes transportam de um lugar para o outro, cantando num salão de reunião, uma pequena cama tão estreita que parece piada, e que neste quarto improvisado tento encontrar desesperadamente um cinto, uma extensão, ou um espelho, todos conseguiram se harmonizar exceto eu! Parabéns! Num tempo récorde eu já transformei a nota 10 em dificuldade. Sinto vontade de chorar. Tenho vontade de me debruçar... até mesmo num ombro masculino. Mas nossos três homens foram beber cerveja. E assim, contra qualquer expectativa, no ponto culminante do meu desagrado, é que eu me esforço, constato o ridículo da minha situação e agradeço o céu por essa tábua de salvação relâmpago.

Pequenos estremecimentos desse tipo, por qualquer outro motivo, todos nós os tivemos, evidentemente. Mas o que foi extraordinário nessa estadia, foi a rapidez em neutralizar a mecha antes mesmo da faísca acender, numa ternura cúmplice que parecia milagre. De fato, creio que com afinidades pouco evidentes à primeira vista para alguns, estávamos tão maravilhados com esta osmose, que se fazia num nível tão elevado, tão rapidamente que nós a mantínhamos, como uma vestal mantém o fogo.

A hora de romper nossas amarras

Então, sábado cedo todos de pé. Do térreo nos chegam vapores de tacos puramente irresistíveis. E aí, uma visão de sonho... No pátio, a mesa está posta. E na cozinha, Nicolas agita a frigideira, François corta as papaias e Jean-Pierre supervisiona o café... Homens de ouro? Estamos super felizes. Um anjo participa da nossa oração da manhã. Mas lá fora, o grande ônibus de nossos amigos mexicanos nos espera para a pequena peregrinação do mês. Destino: Tequisquiapan. A duas horas do México. O tema do dia: "A libertação de nossas prisões interiores". Vasto programa, que só abordaremos depois de nos ter conhecido melhor. A bordo, então, Franceses e Mexicanos, nós nos misturamos e nos conectamos sobre a alternativa usual do amor, das orações e das canções rancheras (tradicionais mexicanas). Como nada é devido ao acaso, o ônibus para o tempo suficiente de se fazer uma oração diante de uma prisão à beira da estrada. É quando Adriana e Yuri distribuem para cada um de nós cordões entrelaçados em papel crepon preto, evocando nossas amarras interiores e uma grande folha branca onde vamos escrever todos os entraves que desejaríamos pulverizar. Mas também todas as nossas expectativas mais profundas. Felizmente as folhas têm o formato A4.

Primeira parada no "Rancho 7", cercado de vegetação e precedido pela sua capela colonial. O vento é fresco. Mas no céu, uma névoa ligeira adquire delicadamente a cor dos raios do sol. Lentamente nos agrupamos em círculo na relva para fazermos juntos nossas primeiras vibrações. Todos esses sorrisos mexicanos me impressionam. Eles irradiam uma luz infantil. A osmose é total. Depois, um almoço de príncipes ao redor de grandes mesas redondas e um festival de sabores... guacamole, chichorones, tamales, expostos em folhas de milho, nopalitos (folhas de cactus, cujos espinhos são responsáveis pelo sabor especial do azeite de oliva) e toda uma variedade de mil outras delícias. É hora de romper nossas amarras simbólicas na pequena capela. Escuta de uma cassete de Yvonne e, depois, numa alegria indescritível, rasgamos o papel crepon e voltamos ao ônibus, muito satisfeitos e despreocupados.

Tequisquiapan

Alguns minutos mais tarde, após uma etapa ao redor de um monumento situado no centro geofísico do México, na entrada de Tequisquiapan (imaginem nosso choque!), desembocamos na cidade, somos atingidos pela música, por suas ruas cheias de pedestres e de artesanatos multicoloridos pendurados em todas as fachadas. Não vamos deixar de nos divertir. Mais inesperada será a nossa visita à igreja. Lá, mal acabamos de nos ajoelhar, que ritmos potentes de violões e de cantos misturados invadem o recinto. Nossas cabeças se voltam para a entrada e surge uma moça de uma beleza selvagem, com maçãs do rosto salientes, pele morena, vestida de azul até os pés. Não havia nenhuma filmadora escondida. É que simplesmente hoje ela completa 15 anos. É sua entrada no universo impiedoso dos adultos. E 1 velha tradição mexicana quer que as jovens se recomendem a Deus nesse dia.

Orações... e cervejas

O dia foi denso em trocas e tomadas de consciência. Assim serão todos nossos dias. Completamente ocupados. Ritmados pelas escutas com todos os atores das casas do IVI México, com as harmonizações, com as vibrações, com as orações... Mas também com os risos e com os risos destemperados (como foram soltos)... e o "Sanborn"! Nosso lugar muito especial para nossos intermináveis "cafés da manhã" a base de ovos mexidos, de purê de feijões e suco de cenouras. Em resumo, com uma média de 5 horas de sono por noite, conseguimos fazer todo o programa planejado, e ainda acrescentar coisas, e até mesmo improvisar.

E o domingo começa com os jovens. Todos magníficos! Muito compenetrados quanto à missão espiritual do seu caminho...

Vamos almoçar no restaurante da esquina e, pela primeira vez, eu que detesto cerveja, bebo duas de uma só vez, acho delicioso e François, divertido, me pede uma terceira. No fim da estadia as "Corona", "Victoria", "Índio" e outros "pulque" não terão mais nenhum segredo para nenhum de nós. Voltamos a brindar, com os olhos nos olhos (ritual sagrado!). E Nicolas, com um sorriso ligeiro, nos anuncia: "Já que não vamos mais a Veracruz, vamos a Guadalajara." Espanto! Um bate-volta no mesmo dia ao outro lado do México!

Escala relâmpago em Guadalajara

Terça-feira à meia-noite, cinco de nós embarcam num super pullman para uma viagem noturna a Guadalajara. Tudo havia sido devidamente organizado pelo nosso trio masculino de viagem. Instaladas junto às coberturas das rodas e tranquilizadas pelo conforto de nossos assentos conversíveis, Agnès e eu retomamos nossas pequenas manias femininas, verificando o fundo de nossas bolsas para ver se ali encontrávamos algum bálsamo contra rugas ou um reparador... Mas nada, exceto nossos lenços de papel... Formidável! Pois essas pequenas preocupações, precisamente, e o fato de haver duas mulheres e três homens, isso cria vínculos... Então nos descobrimos, nos amamos, damos risada, rezamos, e assim recomeçamos esse ciclo por quase toda a noite, enquanto os três rapazes, decididamente muito dedicados, rezam seus terços enquanto se mantêm atentos às telas catódicas. Logo, na quarta-feira de manhã, com olhos de sono, mas com um preparo olímpico, o grupo dos cinco se dirige à casa de Antonio, onde somos esperados para o café da manhã.

Antonio mora num dos bairros residenciais distantes do centro. Ele é pintor e arquiteto. Será que é sua alma de artista que faz com que ele se encante tanto ao nos ver?"

"É incrível, ele nos confia, vocês estão chegando exatamente no momento em que eu precisava tanto que as coisas mudassem..." Surge então Maria, muito expansiva, que também ficou encantada por nos ver. Ela ensina dança e percussão. Depois surgem mais três pessoas... Muitas pessoas belas, que estão avaliando plenamente a si mesmas e a natureza do seu caminho espiritual para compreeender o que pôde acontecer: "Tínhamos um centro de Convite à Vida muito dinâmico em Guadalajara, ele nos explica. Muitos jovens, que pouco a pouco desertaram... E nos vimos com um punhado de gente, com um impulso em queda livre." Nós os escutamos, os harmonizamos, seu pedido é grande. "De fato, tínhamos muito desejo de voltar a ter o controle da situação, concluiu Antonio, com um sorriso sereno. Nos faltava esse sopro novo... Obrigada!"
Bem tarde, no mesmo dia, estamos de volta à cidade do México. Não vimos nada desta magnífica Guadalajara, mas nos sentimos plenos. "Missão cumprida". E decidimos terminar o dia nos eflúvios d'El Tizoncito, aquecidos por gigantescas grelhas colocadas por todo o lado, conforme o pedido. Ali, empoleirados em nossos tamboretes de bar, não nos sentimos mais esgotados, contagiados pelo entusiasmo referente a tudo o que nos resta a fazer. Na calçada, músicos cantam "las mañanitas". Para nós, chegou a hora de voltar para casa.

O tempo refreado

Santa Maria de Guadalupe

Bem tenso inicialmente, o amigo Antonio (médico), vai se tornar um dos mais animados da equipe mexicana. Muito entusiasmado, é ele quem vai tomar a iniciativa de nos levar a Teotihuacan. Mas como conciliar esta nova guinada? Nosso programa amanhã está totalmente completo, a partir da basílica de Santa Maria de Guadalupe - onde temos tantas coisas a pedir à padroeira do México que será preciso passar dez vezes sobre o tapete rolante embaixo da sua efígie - até os suntuosos afrescos repletos de símbolos de Diego Rivera no Palácio Nacional e, mais tarde ainda, o jantar num restaurante yucatèque da calle Condesa.

Sexta-feira cedo, muito empenhados a partir de então em refrear o tempo, vamos a Teotihuacan. Nesta hora de claridade suave, a grande onda de turistas ainda não acordou e a colossal pirâmide do Sol nos aparece mais misteriosa ainda em sua nudez, sustentada por sombra e luz. "Mai-ai-son", se diverte Jean-Pierre, com seu dedo indicador sobre o de Marie-Paule. Lá em cima, a 73 m do solo, um pequeno vento seco chicoteia com suas rajadas. Tocamos o céu e o espaço, transpassados por uma enorme energia, felizes, tranfigurados!

Apirâmide do Sol vista da pirâmide da Lua

E Jean-Pierrre, que não queria mais descer da pirâmide da Lua, mais tarde nos dirá: "A pirâmide da Lua é um mar interior... A plenitude dos seus sentimentos. O silêncio depois do amor. A harmonia entre o eu e o resto do mundo, na doçura e na compreensão de uma ternura amante.
Lua, Sol, masculino, feminino. É também o que vivemos durante esta estadia, com uma doçura e um equilíbrio tão perfeitos que nos perguntamos porque nos é tão difícil atingir a clareza do tempo. Nossas almas transbordaram em nosso último rosário. Agradecimentos dos homens pela ternura das mulheres. Agradecimento das mulheres pela delicadeza dos homens. Agradecimentos de todos pelo México, por Yvonne, pela alegria da equipe... E as lágrimas inundaram nossos risos.
Nós jamais os esqueceremos. Tampouco os de nossos amigos mexicanos que vieram nos fazer uma festa de despedida no Centro, tendo no pátio como vedete uma enorme grelha! Fizeram carneiro cozido na terra e coberto com folhas de bananeira, verdadeira prova da existência de Deus.

O dia está muito bonito e quente nesse último sábado de outubro. Não temos mais vontade de nos separar. Para passar o tempo, fazemos milhares de planos a respeito do cometa que manteremos em modo contínuo por fax, por e-mail e telefone... Novos encontros na Primavera. Enquanto esperamos, o belo pátio azul certamente ainda ressoa com cantos de nossos "Cielito Lindo" e "Couroucoucou"!

Monique, outubro de 2003

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